É PRECISO PENSAR NA RADICALIDADE DE VOLTAR-SE AO PASSADO EM UM MOMENTO HISTÓRICO OBCECADO PELO NOVO E PELO FUTURO, PERMEADO POR UM INTENSO SENSO DE IMPERMANÊNCIA"
Qual foi o seu primeiro contato com a história da arte? o interesse veio antes pela pintura ou pelas histórias que existem por trás das obras?
Fui criado em um ambiente que desde muito cedo percebeu minha afinidade por imagens e a vontade de compreendê-las. Eu fui a criança que cresceu com livros nas mãos, e uma lembrança vívida foi o encantamento com o livro Egito: Pessoas, Deuses, Faraós, de Rose-Marie Hagen e Rainer Hagen. Para mim, o fascínio estético quase sempre será o impacto inicial mais marcante, mas creio que entender não somente as histórias de obras, mas como elas refletem um pensamento, uma cultura e um modo de vida foi o que me fez permanecer.
Muitas das suas pinturas parecem conversar com imagens pré existentes. o que te atrai no gesto de revisitar e transformar referências do passado?
Até o momento, todo o meu corpo de trabalho dialoga com imagens anteriores, seja reproduzindo tapeçarias, esculturas e outros objetos, seja pelo mecanismo do ‘furto qualificado’, na apropriação de gestos outrora retratados. O que me atrai nesta forma de trabalhar são as inúmeras implicações que gera. É preciso pensar na radicalidade de voltar-se ao passado em um momento histórico obcecado pelo novo e pelo futuro, permeado por um intenso senso de impermanência.
Quando propus a minha primeira exposição individual, Para governar a natureza com pés de ferro (2025/CCSP), todas as pinturas reproduziam tapeçarias europeias medievo- renascentistas enquanto palcos em que figuras enceram. É necessário compreender que estes objetos eram ligados a nobrezas e utilizados como símbolos de poder régio e econômico, diversas vezes utilizados até mesmo como moeda diplomática, e nunca foram concebidos para serem pisados. Eles retratam cenas de domínio, sobre a natureza, a sexualidade, a religião, corroborando com a visão daqueles que as encomendavam. Colocá-las no chão e meter-lhes o pé é um ato rebelde e que subverte e questiona suas narrativas. E fazê-lo se valendo de uma técnica de pintura de origem europeia, sem abdicar de uma execução de prazer estético, é dar-lhe um murro. Incorporar essas referências torna-se um mecanismo poderoso de revisitar a história construída do passado, sua perpetuação e reflexos na consciência contemporânea, expondo suas contradições. É isto que me atrai.

Você costuma olhar para a história da arte com seriedade e humor. quando percebeu que a ironia poderia fazer parte da sua linguagem?
Sim, é verdade. Comecei a fazer essas imagens em um período muito incerto da minha vida, aos 22 anos. Havia acabado de concluir a graduação em Artes Visuais, na unesp e, com ela, meu estágio na Secretaria Municipal de Cultura, onde não havia efetivação.
Estava trabalhando como assistente de um artista para uma exposição no exterior, e tive que interromper a participação por problemas de saúde. Foi um período de transição em que senti que não havia nada a perder e que, então, deveria mergulhar de cabeça na pintura - apenas com a intenção de ser uma extensão minha. E, de fato, essa abordagem reflete a minha personalidade: sou uma pessoa extremamente séria em determinados contextos (um capricorniano nato, diga-se), mas irônico e de língua afiada. Como artes são formas de comunicação, fez sentido me comunicar dessa maneira.
"É COMO SE ESSAS CONSTANTES ME POSSIBILITASSEM EXPLORAR DE FORMA MAIS OUSADA E AUTÊNTICA O QUE EU REALMENTE PRECISO FOCAR"
Seus títulos chamam bastante atenção e parecem ter um papel importante na leitura das obras. em que momento eles surgem no processo?
De fato são componentes essenciais das obras e das minhas exposições e sou bastante metódico no meu modus operandi, sou parte do grupo que consegue se movimentar com maior liberdade e conforto quando opera dentro de uma estrutura mais rígida. É como se essas constantes me possibilitassem explorar de forma mais ousada e autêntica o que eu realmente preciso focar. E a nomeação se inclui nisso, os títulos são importantes não apenas para mediar o conteúdo [de uma pintura ou de uma exposição], mas também desarmar o interlocutor e inquietá-lo. Existem obras que surgem a partir de uma frase que aparece na minha mente, ou que entro em contato via literatura, por exemplo. Existem aquelas que rumino por meses até conseguir colocar um ponto final. O que não admito são títulos genéricos. Passo.
Você expõe suas obras no MAC e leciona no MASP, a experiência de ver seu trabalho alcançar espaços tão grandes legitima ainda mais a sua visão artística?
O diálogo com instituições faz parte do meu ‘DNA’ artístico - com individuais e outras exposições em museus diversos. Isto legitima o meu trabalho em escalas diferentes, seja para o mercado, para a crítica ou para minha própria reputação e circulação. Mas defendo que nenhum artista precisa, necessariamente, atingir a escala institucional para ser e se sentir legitimado e, no decorrer da história, muitos não alcançaram isto em vida, é fato. O museu é o local em que pude explorar sem restrições minha pesquisa artística, e a instituição é largamente responsável pelo estudo e sua difusão, é o espaço de aprofundamento e crítica que alterou a percepção pública do meu trabalho e explicitou o que faz dele contemporâneo ao público geral, e isso é extremamente legitimador. No MASP, inicio esta parceria junto da historiadora da arte Juliana Guide para que introduzisse algumas aulas especiais dentro de seus cursos no museu. Com toda certeza visualizo a legitimidade por trás de tudo isso, entendendo que ocupo este lugar enquanto artista capaz de transmitir conhecimentos a públicos diversos. Isto, em si, é uma alegria imensa. Nem mesmo o mais autodidata dos artistas aprendeu tudo sozinho, o fazer artístico é engrandecido e potencializado através dessa troca, e é uma honra poder contribuir com isto dentro do espaço do MASP.

“NEM MESMO O MAIS AUTODIDATA DOS ARTISTAS APRENDEU TUDO SOZINHO”
Algumas das suas pinturas parecem mostrar apenas um fragmento de uma cena maior. existe alguma razão para esse tipo de recorte?
Acho que é um reflexo de como vivemos hoje em dia. Não sei se conseguimos desenvolver um olhar panorâmico, para o todo. Tenho dúvidas. Os ‘old masters’ da pintura realizavam grandes composições, cenas completas e balanceadas. E eles possuíam os artifícios para tal, simplificando gestos, anatomias, detalhes, selecionando o foco visual desejado, tudo de forma extremamente virtuosa. O fragmento me parece uma narrativa mais condizente com os nossos tempos, quase tudo está explícito, as figuras estão mais próximas e em maior intimidade conosco…, porém, impera uma aura impenetrável e de mistério, de irresolução de um todo. Há uma inquietação no fragmento e isto me atrai profundamente.
Entre o artista, o pesquisador e o professor, existe algum papel que você sente que alimenta mais os outros dois ou eles já se misturaram completamente?
Acho que eles nunca foram separados, com toda honestidade. No processo de escrita da minha dissertação de mestrado em Museologia, conheci o trabalho do Millard Meiss em relação aos superintendentes de belas artes italianos - ele os considerava verdadeiros polímatas, pessoas com amplos conhecimentos em áreas distintas, capazes de conciliá-los para compreender e resolver questões complexas. Em uma era de especializações engessadas, acredito muito saudável aprender a nutrir um escopo de conhecimento maior, e não me restrinjo ao conhecimento acadêmico. Essa fluidez de áreas é fundamental para o meu viver e expressar, mas ser pesquisador em ampla acepção do termo é um aspecto fundante. O João artista e o João professor não existiriam nas mesmas configurações sem o João pesquisador.
Se você pudesse passar uma tarde conversando com qualquer artista da história, quem seria e qual seria a primeira pergunta que faria?
Existem muitos artistas com os quais eu gostaria de compartilhar uma tarde e, sobretudo, vê-los trabalhar. Gostaria de uma tarde no ateliê de Rubens ou Tiziano. Dos modernos, gostaria de conhecer o processo da Tamara de Lempicka e aposto que ela ofertaria uma conversa incrível. Mas, para essa pergunta, seleciono um artista mais enigmático, que conhecemos a trajetória, mas praticamente nada da sua personalidade: Fra Angelico (1395-1455), beato e frade dominicano ativo na transição tardo-gótica ao Renascimento. Não sou uma pessoa particularmente religiosa, mas suas pinturas guardam algo de transcendente, há uma ternura inominável. Eu o perguntaria sobre a sua manipulação de cores. Não sei se algum artista alguma vez chegou perto do que ele conseguiu fazer, neste quesito, tão intenso, luminoso e numinoso.
As roupas carregam informações sobre uma época, um contexto ou até uma personalidade. quando você pinta uma figura, o vestuário faz parte da construção dessa narrativa? existe muito do despir-se nas suas obras que sugerem uma ideia de toque e pele.
Para mim, por mais automática que pareça uma escolha de uma roupa, ela também é produto de uma série de fatores, sociais, econômicos, políticos, históricos e pessoais. Quando elaboro uma pintura como a Quebra pau! Não me calarei para sempre, em que apareço em uma meia calça vermelha, dialogo diretamente com a indumentária do Renascimento, feita com propostas de valorização do masculino, cuja fúria é colocada em pauta neste trabalho. Ou em A Conversação paterna, em que o contraste entre a figura de madeira de Santa Bárbara, mártir casta, mas cujas vestes estão desgastadas, e minha figura masculina em shorts é base para pensar na ironia posta. Estou a todo momento realizando tais escolhas e adaptando-as conforme a narrativa. Todos os seres nas pinturas que não aqueles representados nos objetos e tapeçarias, mas ‘de verdade’, são a minha figura reproduzida. Não trabalho com modelos. Foi e é preciso se desnudar para produzir essas pinturas que, simultaneamente ao diálogo externo com a genealogia da história da arte, abordam questões pessoais minhas. Desde que comecei a trabalhar com a multiplicação da minha imagem em uma única tela, assumindo o lugar de duplo, a tensão do toque se fez presente, seja de ternura ou agressividade. A pele é muito frágil e sente de tudo. A exponho quando sinto que faz sentido.

*imagens cedidas pelo artista.
@jg.parisi
