Qual foi seu primeiro contato com a arte? Você se sentiu convidado a se tornar artista ou despertou um interesse como apreciador?
Lembro de, ainda na escola, tentar reproduzir os girassóis de Van Gogh. À época, o ato de criar parecia mais mágico do que qualquer intenção de aperfeiçoamento ou resultado. Era um fazer espontâneo, quase instintivo. Não sei dizer se me senti propriamente convidado a me tornar artista, mas, desde cedo, a arte deixou de ser apenas contemplação e passou a ser uma forma natural de expressão para mim.
Você explora muitas figuras femininas. Isso tem alguma relação com sua vida pessoal? O que o feminino representa para você como artista?
Fui criado, em grande parte, por mulheres, e isso atravessa diretamente o meu trabalho. A presença da minha mãe e da minha avó na minha criação marcou minha forma de perceber e compreender o mundo.
O feminino, para mim, é um caminho natural para criar essa imagem na pintura, transformando em imagem as emoções e memórias que me acompanharam ao longo da vida. Contemplar uma imagem feminina para pintar se torna mais fácil quando essa presença já fez parte da minha experiência durante grande parte da vida.
“MESCLAR O DIGITAL COM O TRADICIONAL É UMA FORMA DE EXPANDIR MEU PROCESSO E BUSCAR RESULTADOS QUE FUJAM DO ÓBVIO”
A arte digital, para você, é um meio para concluir uma obra ou mais uma das habilidades que desenvolveu?
Sempre tive interesse em explorar novas possibilidades, criar conexões e experimentar diferentes linguagens. Essa experimentação constante é uma parte importante do meu trabalho, e isso vai desde a escolha da plataforma até a mistura de óleo com spray, tinta acrílica e, posteriormente, a aplicação de carvão sobre a obra.
Qual é a principal diferença entre realizar sua obra em tinta a óleo ou em formato digital? Como você descreve o processo de começar uma obra em tela e finalizá-la digitalmente?
A principal diferença, para mim, está na agilidade que o digital oferece. Nele, consigo testar rapidamente as várias possibilidades que surgem na minha mente antes de definir o caminho final da obra.
Mesmo assim, procuro manter no digital o mesmo raciocínio que utilizo na pintura a óleo, para que não haja uma ruptura entre os dois processos. Meu objetivo é que ambos conversem entre si.
Costumo iniciar com uma base de cores quentes e, aos poucos, vou construindo a imagem em camadas, adicionando variações de cor de forma gradual até alcançar o resultado desejado.
Existe algum momento decisivo que moldou a forma como você enxerga a arte?
Minha admiração pela arte de rua no meu bairro, ainda na adolescência, foi um momento marcante. O contato com o grafite transformou minha forma de enxergar a arte.
Naquela época, pintar não tinha a ver com retorno ou reconhecimento; era quase uma necessidade. A ideia de fazer algo “de graça” até parecia absurda para alguns, mas, para mim, a vontade de produzir e me expressar falava mais alto do que qualquer outra coisa. Foi nesse contexto que comecei a entender a arte como urgência, como algo que precisa acontecer para que eu esteja aqui.
Quando você começa uma obra, já tem a imagem final em mente ou o trabalho se transforma durante o processo?
Geralmente começo com uma imagem em mente, mas, ao longo do processo, ela pode se transformar. Isso acontece muito a partir dos sentimentos que a obra começa a despertar em mim e das narrativas que vão surgindo durante a criação.
Sempre acreditei na arte como a forma única que cada artista encontra de enxergar e traduzir uma imagem. O que mais me encanta é perceber como uma mesma ideia pode gerar inúmeras interpretações diferentes, dependendo de quem a cria.
Existe algum elemento recorrente nas suas pinturas que você percebe apenas depois que a obra está pronta?
Acredito que algumas linhas mais orgânicas, com movimentos que lembram formas florais, acabam surgindo de maneira quase inconsciente no meu trabalho. É algo natural para mim, e percebo isso principalmente depois que a obra já está pronta, muito influenciado pela Art Nouveau.
Por outro lado, há elementos que trago de forma intencional, como a mistura de símbolos e a presença de movimento nos corpos, como se fossem atravessados pelo vento. Minha visão da obra nasce muito da vida cotidiana, e a pintura se torna uma tentativa de traduzir, ainda que parcialmente, essas sensações e experiências.
“MINHA LINGUAGEM VISUAL FOI FORTEMENTE INFLUENCIADA PELO EXPRESSIONISMO, QUE MOSTRA COMO A REALIDADE PODE SER TRANSFORMADA PELA VISÃO DO ARTISTA”
Você tem algum ritual ou prática que o ajuda a entrar em um estado criativo?
Na maior parte do tempo, estou em um estado constante de observação, como se qualquer cena pudesse se transformar em pintura. Vou registrando momentos do cotidiano na mente, em uma espécie de máquina de ansiedade criativa. Ela só desacelera quando consigo materializar a imagem que imaginei.
Durante o processo, costumo ouvir hip hop, buscar e salvar imagens que se aproximam do que visualizei, além de me alimentar das últimas notícias desse nosso mundinho neoliberal maldito. Também faço rascunhos rápidos para entender como a composição da tela vai se organizar.
Qual objeto do seu ateliê você nunca conseguiria descartar? Ele funciona como um amuleto?
No meu ateliê, há um objeto que eu nunca conseguiria descartar: a tinta a óleo marrom Siena, que uso para começar qualquer base. Não é exatamente um amuleto, mas me traz uma sensação de alívio. É como ter um ponto de partida seguro, que me indica para onde a obra vai se encaminhar.
Quais artistas ou movimentos mais inspiraram a criação e o desenvolvimento da sua linguagem visual?
Minha linguagem visual foi fortemente influenciada pelo Expressionismo, que mostra como a realidade pode ser transformada pela visão do artista.
O Jean-Michel Basquiat me inspira pelo desprendimento e pela riqueza simbólica de suas obras. Já Gustav Klimt e John Singer Sargent me influenciam pela técnica refinada e pelo cuidado no processo, no qual cada pequeno detalhe da tinta é pensado para contribuir para a imagem como um todo.
Você faz trabalhos para a FID, que consistem na pintura em peças de roupa. Qual papel a moda desempenha na sua vida pessoal e na sua arte?
Vejo a roupa como uma tela viva, capaz de alcançar e impactar pessoas de formas que a arte tradicional nem sempre consegue. Ela pode despertar interesse, questionamento e reflexão, quebrando a monotonia do dia a dia. Na minha arte, a moda se torna uma extensão do meu trabalho, uma maneira de levar a pintura para lugares onde museus fechados não chegam.
Se você não fosse artista, qual profissão acha que teria seguido?
Quando eu tinha 12 anos, meu maior sonho era ser jogador de futebol, muito por conta do meu avô, que sempre me incentivou. Eu tentei, me esforcei, mas, com o tempo, percebi que não era o meu caminho.
Hoje, olhando para trás, sinto que nenhum outro caminho me daria tanto sentido quanto a arte. Ser artista me permite criar, experimentar e me expressar de um jeito que nenhum outro trabalho conseguiria. É através da pintura que encontro propósito, que transformo sentimentos e memórias em algo concreto, e isso faz toda a diferença para mim.
O que antes era refúgio virou necessidade. É difícil me imaginar fora de algo que acabou se tornando o próprio “eu”. Talvez algo ligado ao esporte ainda chegasse perto dessa intensidade, mas, no fundo, tudo isso exige a mesma coisa: uma fé cega. Você precisa se entregar ao máximo, acreditar até o limite, porque, até dar certo, sempre vai parecer meio louco para os outros.
*imagens cedidas pelo artista.
@gimenes6
